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Atividades econômicas ilegais impulsionam o desmatamento da Mata Atlântica

In Destaques, Meio Ambiente
fevereiro 14, 2025
© Fernando Frazão/Agência Brasil

A expansão irregular de atividades econômicas, como a pecuária, o cultivo de eucalipto para carvão e as plantações de soja, foi responsável por uma significativa perda de vegetação nativa na Mata Atlântica na última década. De acordo com dados analisados, o bioma perdeu uma área equivalente a 200 mil campos de futebol entre 2010 e 2020. O desmatamento ocorreu, em grande parte, em propriedades privadas e com indícios de irregularidades.

A pesquisa foi realizada por especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade de São Paulo (USP) e da ONG SOS Mata Atlântica, que utilizaram imagens de satélite para mapear as áreas afetadas. Os resultados apontam para a destruição de mais de 186 mil hectares de florestas maduras, distribuídos em 14 mil pontos diferentes, abrangendo desde a costa nordestina até o sul do Brasil.

O estudo, publicado nesta sexta-feira (14) na revista Nature Sustainability, revelou padrões alarmantes no avanço do desmatamento, considerando aspectos como a localização, o perfil das propriedades e o uso posterior do solo.

A Bahia foi o estado com maior índice de desmatamento, especialmente na divisa com Minas Gerais, região conhecida pela produção de carvão vegetal para abastecer termelétricas. Minas Gerais também apresentou registros significativos, assim como o Paraná e Santa Catarina, que figuram entre os principais pontos críticos identificados.

Além dos prejuízos ambientais, a derrubada das florestas contribui para o aumento do efeito estufa e compromete a qualidade e a quantidade de água potável disponível, impactando diretamente as áreas urbanas, que concentram a maior parte da população brasileira. O estudo enfatiza que esses danos afetam, sobretudo, as camadas mais vulneráveis da sociedade, expostas a eventos climáticos extremos e à alta no preço dos alimentos.

Os pesquisadores alertam para a insuficiência de áreas protegidas e ressaltam a importância de fortalecer o apoio às comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, que atuam como guardiãs da floresta. Silvana Amaral, pesquisadora do Inpe e coautora do estudo, destaca a necessidade de uma governança ambiental mais eficiente e de investimentos na recuperação de ecossistemas degradados.

Segundo Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica, o cenário observado ocorreu mesmo após a criação da Lei da Mata Atlântica, em 2006, evidenciando falhas na fiscalização. O pesquisador defende a criação de incentivos econômicos para estimular práticas sustentáveis, sobretudo entre os pequenos proprietários, além de mecanismos que transcendam o simples modelo de punição.

A educação ambiental também foi apontada como um fator crucial para a preservação do bioma. A ausência de ações educativas contínuas, aliada a propostas legislativas que visam flexibilizar as normas de proteção, contribui para a perpetuação de práticas destrutivas. Mudanças na estrutura de órgãos ambientais, como o Ibama, durante gestões anteriores, também foram mencionadas como elementos que favoreceram o aumento do desmatamento.

Diante do cenário preocupante, o estudo reforça a necessidade de transformar o combate ao desmatamento em uma política de Estado, independente das mudanças de governo. A retomada das ações de fiscalização e o comprometimento com metas ambientais são passos fundamentais para preservar o que resta da Mata Atlântica e garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.

Fonte: Agência Brasil